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Era nas palmas das mãos e na articulação dos joelhos que se apoiava toda a minha curiosidade. Não só a minha. A de meu primo e a de minha irmã caçula. Era só chegar visita na casa da vó que logo deixávamos o esconderijo-mirim e engatinhávamos invisíveis para detrás do sofá da sala onde os adultos conversavam coisas secretas. Em todas as vezes os assuntos eram ininteligíveis, chatos e entediantes, mas sempre continuávamos com o ritual. Era quase como se fossem as nossas boas-vindas.
Vó não se importava. Ria até. Olhava pra visita com cara de "crianças-sabe-como-são" e escapava um risinho orgulhoso, mimo de seus netinhos. Era carinhosa a vó. Com a delicadeza e a paciência que cultivou em épocas de trabalho e suor na lavoura.
Acabava que não obtínhamos nenhuma informação interessante na conversa da sala, mas na verdade o interesse real era sempre substituído pela alegriazinha esfuziante de acreditar-se invisível. Criávamos rotas por detrás dos sofás, engatinhando com destreza como faria Sherlock Holmes - se engatinhasse. Soltávamos risinhos de adrenalina. Como vó não falava nada, como se não estivéssemos ali a fazer barulhos esfolando joelhos nos tapetes, tínhamos a certeza de que ninguém nunca soubera de nossas espionadas. Vó era patrocinadora oficial de nossa natureza curiosa e persuadia seus visitantes a conservar o faz-de-conta. As visitas então tornavam-se cúmplices e continuavam a tagarelar alegres com minha vó.
Meus joelhos raquíticos acabavam a aventura vermelhos e irritados como as palmas das mãos. Ganhavam por algumas horinhas uma outra textura doída. O tapete imprimia sem dó desenhos na nossa pele de molecada. Esfoliação têxtil, esfregávamos nosso DNA como se marcássemos território na sala de visitas da vó.
Hoje deixei a antiga tática do engatinhamento e sempre deixo minha curiosidade perder frente ao orgulho de nunca me deixar arrastar para colher qualquer informação que eu queira: mesmo as mais interessantes - aquelas que atiçam e fazem coceguinhas na consciência da gente.
Fiquei indiferente e nem sei como isso se deu. Deve ser resultado de muita ameaça de ditado popular: que a curiosidade matasse só o gato. Quanto a mim, não quero mais saber não. Vó deve estar agora indignada no céu. Devia era ter dado bronca, enxotado a gente da sala já que tudo se acabaria assim tão maduramente sem-graça, sem-interesse, sem-mistério-a-ser-solucionado.
Talvez eu devesse exercitar mais minha curiosidade enxerida. Me vi então subindo devagar as escadas do prédio até o andar de cima. Era sempre à noitinha que todo o barulho começava. Pareciam passos estrondosos que não andavam: terremoteavam num compasso lento no teto de casa. Encostei meu ouvido na porta do 304 e tentei ouvir qualquer diálogo, qualquer voz humana. Nada. Só uma música tranquila quase inaudível. Brrraaaam! ... Brrraam! Só o barulho de um corpo caindo no chão repetidas vezes e uma respiração calma e bem marcada.
Curiosa, curiosa, pude ouvir o risinho da vó consentindo. Ajoelhei e tentei espiar pela fresta debaixo da porta. Me cheiraram os olhos. Fungaram. Quando percebi meu delator canino do outro lado, abriram a porta e flagraram minha curiosidade ali, apoiada nas palmas das mãos e nas articulações dos joelhos. Vi os pés grandes descalços, fui erguendo minha cabeça e enxergando: calça de moletom, uma camiseta branca, cabelos bagunçados e uma cara divertidíssima. Nunca te disseram que a curiosidade matou o gato?
Olhando rapidamente para dentro da sala à procura de alguma pista para que ao menos solucionasse o caso já que minha dignidade estava perdida mesmo, o vizinho de cima me convidou para entrar. Então, o que fazia além de olhar por debaixo das frestas das portas dos outros? Relatei que na verdade sempre à noite ouvia barulhos pesados no andar debaixo e não tinha conseguido identificar. Pensei que pudessem talvez ser alguém desastrado o suficiente para viver caindo de meia em meia hora. Talvez um cego. Ou um velhinho orgulhoso que precisasse de ajuda. O som de um corpo caindo toda hora ao chão como um saco de batatas de toneladas não podia ser bom sinal. Ele riu e se desculpou: é que eu sempre faço yoga em casa quando volto do trabalho. São umas sequências, que exigem que eu fique de pé e depois caia o peso do corpo no chão em posição de flexão, troque a posição das pernas, treine meu equilíbrio, enfim... Hatha Yoga, conhece?
Matriculei-me no dia seguinte em uma escola. Talvez eles me ajudassem com a minha curiosidade irremediável. Quanto ao vizinho, nunca mais tive a capacidade de cumprimentá-lo sem enrubescer: minha dignidade praticamente caiu de joelhos em sua soleira e nunca mais foi recuperada. O vizinho colocou enfim um capacho para a vedação da porta. Não fui lá conferir uma segunda vez. Foi para evitar correntes de ar, entrada de sujeira e vizinhas curiosas, ele brincou quando topei-o no elevador.
Vó lá de cima só riu.
2 comentários:
Olá Dani,
Venho aqui dizer que fiquei feliz ao ver que pisou em meu chÃO, com sua visita lá em casa, que plantou palavras boas e que anda seguindo meus passos. Coração agradece.
Gostei muito daqui, das suas histórias...
Libertaram sorrisos meus.
Convido tbm a conhecer o meu quintal, no qual plantei por lá, esse seu jardim imenso de palavras coloridas:
http://123amarelinha.blogspot.com
Te aguardo.
Abraços, flores e estrelas
Não só a vó!
(Escrevo, sim; não prometo que seja logo, mas a mão já tá formigando por falta de textos...)
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