Tuesday, August 23, 2011

Happy Hour

Nos bolsos cheios de coragem, tentou esquentar os dedos gélidos do frio paulistano. Torceu para achar uma luva no chão, um cobertor nas esquinas, um aquecedor de alma. Caía garoa fina. Por fim, a coragem caiu do bolso enquanto remexia velhos pensamentos que levava a tira-colo. Não se deixaria mais encontrar facilmente: se esgueirou como ratazana pelos bueiros da cidade. Os passos largos e rápidos entraram num pub cheio de pessoas programadas para sorrir naquela sexta-feira em que a felicidade tinha hora marcada e dia da semana definido. Como se pode viver num mundo desse? Com poucos que podem viver de sonhos. Com poucos que podem realmente escolher. Com muitos que se enganam transferindo a frustração em extravagância nas compras de itens desnecessários e geringonças tecnológicas de nomes futuristas. Para quê? Pediu uma cerveja. Jogou o cotovelo direito sobre o balcão com a raiva de um golpe destinado a falhar. Ruiu um pouco por dentro e apoiou o queixo barbado no punho aberto que doía.

Pensou nos punhos abertos que se abriam e fechavam não sabia ainda como. Talvez fosse a alma escorrendo pelos punhos, a vida vazando pelas palmas das mãos. Doía pra cacete. Mais do que cortar a cara fazendo a barba pela manhã. Fria.

Eram dias de vento cortante e canelas resfriadas. Ele desdenhava do frio, recusava abrigo de guarda-chuvas, ignorava a existência de cachecóis ou luvas. Lembrava-se da utilidade de todos eles somente quando gelava embaixo da garoa fina: saboreava um arrependimento expresso e depois esquecia quando o sentimento de sobrevivência inflava seu orgulho. Hábito adquirido de menino. Ele enfrentava o tremor e dentes batendo com ousadia e teimosia. Mania de topar sermões maternos, de querer provar o misticismo errôneo da ligação friagem e sucesso das investidas do vírus da gripe. Não desistiria tão fácil da luta inconsciente. Haveria de morrer de resfriado. E imaginar para si esse final sarcástico, o fazia sorrir com ironias penduradas na argola do piercing que furava seu lábio ressecado pela baixa temperatura. Não existia calor em São Paulo. Não existia amor em São Paulo. Encostava o gargalo da garrafa na boca que ardia e se contentava com a leve dor irritante. Como se os pequenos incômodos que suportasse fossem troféus, ele escolhia não se privar de nenhum. Passatempos para se distrair de um incômodo maior, a verdadeira arte na vida era saber como enganar a si próprio - por questões de sobrevivência.

Sozinho, começou a contar quantos sorrisos iludidos esticavam-se ao seu redor. Descortinavam dentes brancos, dentes de fumantes, dentes tortos ou recém-endireitados por aparelhos metálicos. Sentia pena daqueles dentes. Sentia-se solidário a todas as arcadas dentárias expostas assim, por nada. Sem justificativa cabível. Ainda mais neste frio, pensou lambendo os lábios ardidos. Nenhum hidratante labial. Recusava também esse conforto. Não admitiria trazer no pescoço a cara de alguém que parecia acabar de comer um frango assado e desconhecer o que era um guardanapo. Preferia a boca rachada e sangrando no dia seguinte ao mínimo sinal de estiramento dos lábios. Ao menos era improvável que ele sorrisse nos próximos meses, ou ainda nessa vida, portanto, sem ameaças. Tudo estava então em paz. Absoluta paz. Bocejou entediado. O lábio esticou. Rachou.

Sangrou.

1 comentários:

victor pompêo said...

Existe amor e calor em São Paulo -- mas escondido, como que tentando sobreviver.