Tuesday, December 27, 2011

Signal


imagem via Nanami Cowdroy

Estava. Era assim que consistia involuntária nas atividades biológicas de um organismo que funciona sem escolher suas próprias sinapses. Queria era ter um guarda-sinapses com todas as opções penduradas em cabidezinhos organizados por cores e tamanhos. Abriria a imensa porta e lhe caberia uma conforme o gosto do humor ou a tendência mais cômoda.

Pensava que a vida era tão misteriosa exatamente porque era arrogante: nunca perguntava nada. “Ei você! Quer nascer, viver, se reproduzir e morrer? Quer passar nove meses num útero e dez meses num hospital entubado até perder-se na inconsciência do não ser? Que tal nascer à mercê e morrer à mercê
[de outros?”

Não, não se perguntava nada. A gente nasce do turbilhão de um furacão poderoso e que tem pressa. E a gente é condenado a se apaixonar pela vida. E a saber que teremos que deixá-la um dia
[fatalmente.

Engraçado, como o absurdo toma ares de normalidade com o passar do tempo. Uma vez sem querer, discou o próprio número de celular. Deu ocupado. Nada na cidade permite que a gente fale com a gente mesmo. Estaremos sempre na linha ocupada quando quisermos nos alcançar. Somos inalcançáveis - para nós mesmos - o tempo todo. E a consciência de que somos aquilo de mais próximo que temos não passa de mera ilusão. Imaginamo-nos donos de nossa própria companhia e então nos sentimos livres para corrermos atrás de coisas outras e várias.

Mas nos falta um pouco do muito de nós mesmos.

Um dia ela discou o próprio número. Só pra se lembrar daquele sinal de ocupado e ouvir o som que acusa urgente:

- tu, tu, tu, tu [que não te podes nunca atender a ti mesma]

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