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| imagem via Nanami Cowdroy |
Estava. Era
assim que consistia involuntária nas atividades biológicas de um organismo que
funciona sem escolher suas próprias sinapses. Queria era ter um guarda-sinapses
com todas as opções penduradas em cabidezinhos organizados por cores e
tamanhos. Abriria a imensa porta e lhe caberia uma conforme o gosto do humor ou
a tendência mais cômoda.
Pensava que a
vida era tão misteriosa exatamente porque era arrogante: nunca perguntava nada.
“Ei você! Quer nascer, viver, se reproduzir e morrer? Quer passar nove meses
num útero e dez meses num hospital entubado até perder-se na inconsciência do
não ser? Que tal nascer à mercê e morrer à mercê
[de outros?”
Não, não se
perguntava nada. A gente nasce do turbilhão de um furacão poderoso e que tem
pressa. E a gente é condenado a se apaixonar pela vida. E a saber que teremos
que deixá-la um dia
[fatalmente.
Engraçado, como
o absurdo toma ares de normalidade com o passar do tempo. Uma vez sem querer,
discou o próprio número de celular. Deu ocupado. Nada na cidade permite que a
gente fale com a gente mesmo. Estaremos sempre na linha ocupada quando
quisermos nos alcançar. Somos inalcançáveis - para nós mesmos - o tempo todo. E
a consciência de que somos aquilo de mais próximo que temos não passa de mera
ilusão. Imaginamo-nos donos de nossa própria companhia e então nos sentimos
livres para corrermos atrás de coisas outras e várias.
Mas nos falta um
pouco do muito de nós mesmos.
Um dia ela
discou o próprio número. Só pra se lembrar daquele sinal de ocupado e ouvir o
som que acusa urgente:
- tu, tu, tu, tu
[que não te podes nunca atender a ti mesma]

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