![]() |
| exposicao do Picasso na Gagosian Gallery - via VerdadeVerdadeira |
Na aparente calmaria, largou-se entre manadas de búfalos raivosos que descansavam apenas, respirando brutos e ruidosos como se fossem inofensivos. Sentia o perigo rondando e se mantinha tranqüila, em respeito puro, como só os piores riscos são capazes de inspirar. Algo em si aceitava antecipadamente a tragédia, esperando hora a hora; dia a dia; forçando um respirar quase inócuo a transitar suave no peito desassossegado por aquela quietude em suspense.
Havia um sol morno e lento. Pesado e preguiçoso. E não havia brisa. Ou corrente de ar. Nem mesmo qualquer movimento que expandisse o simples arfar torácico dos pesados búfalos raivosos em tranquilidade. O momento preso em teia fina pairava no ar e poderia dissolver-se por nada.
Eles mastigavam. Os búfalos. Comiam e arfavam na pausa de sua raivosidade. E ela ali ao meio. Com gosto de erva doce na língua. Segurava o coração entre os nós dos dedos que nunca estralava e queria ter sentido o incômodo. Desejava a vontade de correr. Os passos para mudar de paragens. O desejo irrefreável da fuga.
Nada veio senão o que permaneceu: um medo respeitoso, tranquilo, com sabedoria de séculos de monges. O medo ousado e preguiçoso. Um tipo de medo que não poderia nunca mais ser chamado de medo.
Olhou atentamente para os bichos, todos muito concentrados em mastigar. Ela descalça sentia nos pés o alimento deles, sentia o cheiro refrescante que espalhava quando ela pisava e esmagava aquele verde. A única cor que tinha cheiro.
Aproximou-se de um dos bichos. Os olhos pequenos demais praquele corpo gigantesco lhe davam o ar selvagem para quem a racionalidade não valia um talo quebrado de vegetação rasteira. Eram puro instinto. Ela esticou o braço devagar em direção. O bicho meneou a cabeça olhando com seus olhos mortos pequenininhos demais praquele tamanho. E bufou. Era importunado na hora sagrada da refeição. Ela tentou mais uma vez o movimento: com mais firmeza e convicção. Tocou o lado do búfalo raivoso e sentiu nas mãos o barulho do arfar do bicho como se fosse o motor de um trator. Ela sentiu o barulho pelos dedos. O único barulho sensorial.
Achou o mundo engraçado e sentiu o infinito todo entrar pelos seus pulmões inflando. Uma falta de ar boa de se sentir. Aflitiva. De repente quis morrer e quis viver - as duas coisas -
Achou o mundo engraçado e sentiu o infinito todo entrar pelos seus pulmões inflando. Uma falta de ar boa de se sentir. Aflitiva. De repente quis morrer e quis viver - as duas coisas -
[com a mesma intensidade.
Com gosto de erva doce na língua.

0 comentários:
Post a Comment