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| imagem via: Stephen Criscolo |
Poderia ter pegado o caminho normal, mas preferiu desviar.
Com passos lentamente propositais, caminhou na velocidade oposta de seus
pensamentos. Pigarreou. A barba por fazer. Os dedos doíam. A planta na varanda
do apartamento morria pela falta de água. Dizia sempre para as visitas que a cultivava
pela beleza do verde, justificando a pergunta que certamente viria. Era
precavido.
Nessa tarde - a do desvio - seguiu a rota sem rumo prestando
atenção na cidade. Prestando atenção aos desconhecidos na rua. Olhava a todos
nos olhos. Ali, no fundo das pupilas. Buscava desesperadamente enxergar alma na
paisagem de pessoas que se amontoavam nas calçadas. Chegava a ser obscena a
intensidade com que procurava os olhos dos desconhecidos que passavam por ele
na rua: todos absortos, zumbis, evitando qualquer contato visual entre si, como
se fosse proibido perceber que existiam outras almas. Existiam?
Mordeu o lábio desistindo. Bufou. Passou pela mente o som
daquela orquesta tocando o Cinema Paradiso. Queria ter aprendido violoncelo.
Queria ter feito tanta coisa. Ainda era novo. Mas não.
A corrente do pescoço. Não conseguia livrar-se dela. De
prata. Estava escura. Era coisa de secreção da pele que ia escurecendo o metal.
Assim disseram. Nada que ficasse dependurado por muito tempo em seu pescoço
conseguiria reluzir. Ela também não. Paciência.
Dobrou a esquina. Tentou afastar pensamentos indolentes.
Chegou numa praça abandonada. Sentou-se no banco. Tirou do bolso da calça o
moleskine. Rabiscou uns desenhos. Não sabia falar. Não sabia escrever. Era
péssimo com palavras. Então rabiscava. Os mais próximos olhavam e tentavam
atribuir significado. Ele achava bom que ninguém entendesse. Ainda ganhava
status de incompreendido. Todo artista quer a incompreensão. Ele a tinha sem
nenhum esforço.
Terminou o desenho. Folheou as páginas passadas. Sentiu o
estômago revirar. Parou. Pensou de novo na orquestra. Pensou de novo no Cinema Paradiso. Queria ter aprendido violoncelo. A corrente de prata escura. Pensou
que ia chorar. Mas não.
Tirou a correntinha. Ficou olhando a peça na palma da mão.
Estava bem mais escura que da última vez que tinha prestado atenção ao espelho.
Fechou com força o punho num golpe de adeus. Depois abriu mão. Ele escurecia metais. Já não
queria.
Não mais.

2 comentários:
Sentimento de percepção de si mesmo e do "não querer mais isso". Pensar no que não fez, no que queria ter feito..
A cara das nossas conversas.
Eu escureço pratas. Envelheço sonhos, entristeço amores. Mas quando dou pra fazer o contrário, parece que lustrei com limpa pratas a correntinha.
E todo mundo é assim.
Às vezes a dor que fingimos, e deveras sentimos, nunca será compreendida pelos olhos alheios, exceto como rabiscos com pouco potencial de inteligibilidade...
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