Friday, July 27, 2012

Metal


imagem via: Stephen Criscolo
Poderia ter pegado o caminho normal, mas preferiu desviar. Com passos lentamente propositais, caminhou na velocidade oposta de seus pensamentos. Pigarreou. A barba por fazer. Os dedos doíam. A planta na varanda do apartamento morria pela falta de água. Dizia sempre para as visitas que a cultivava pela beleza do verde, justificando a pergunta que certamente viria. Era precavido.

Nessa tarde - a do desvio - seguiu a rota sem rumo prestando atenção na cidade. Prestando atenção aos desconhecidos na rua. Olhava a todos nos olhos. Ali, no fundo das pupilas. Buscava desesperadamente enxergar alma na paisagem de pessoas que se amontoavam nas calçadas. Chegava a ser obscena a intensidade com que procurava os olhos dos desconhecidos que passavam por ele na rua: todos absortos, zumbis, evitando qualquer contato visual entre si, como se fosse proibido perceber que existiam outras almas. Existiam?

Mordeu o lábio desistindo. Bufou. Passou pela mente o som daquela orquesta tocando o Cinema Paradiso. Queria ter aprendido violoncelo. Queria ter feito tanta coisa. Ainda era novo. Mas não.

A corrente do pescoço. Não conseguia livrar-se dela. De prata. Estava escura. Era coisa de secreção da pele que ia escurecendo o metal. Assim disseram. Nada que ficasse dependurado por muito tempo em seu pescoço conseguiria reluzir. Ela também não. Paciência.

Dobrou a esquina. Tentou afastar pensamentos indolentes. Chegou numa praça abandonada. Sentou-se no banco. Tirou do bolso da calça o moleskine. Rabiscou uns desenhos. Não sabia falar. Não sabia escrever. Era péssimo com palavras. Então rabiscava. Os mais próximos olhavam e tentavam atribuir significado. Ele achava bom que ninguém entendesse. Ainda ganhava status de incompreendido. Todo artista quer a incompreensão. Ele a tinha sem nenhum esforço.

Terminou o desenho. Folheou as páginas passadas. Sentiu o estômago revirar. Parou. Pensou de novo na orquestra. Pensou de novo no Cinema Paradiso. Queria ter aprendido violoncelo. A corrente de prata escura. Pensou que ia chorar. Mas não.

Tirou a correntinha. Ficou olhando a peça na palma da mão. Estava bem mais escura que da última vez que tinha prestado atenção ao espelho. Fechou com força o punho num golpe de adeus. Depois abriu mão. Ele escurecia metais. Já não queria.

Não mais.

2 comentários:

Marcela Brunelli said...

Sentimento de percepção de si mesmo e do "não querer mais isso". Pensar no que não fez, no que queria ter feito..
A cara das nossas conversas.
Eu escureço pratas. Envelheço sonhos, entristeço amores. Mas quando dou pra fazer o contrário, parece que lustrei com limpa pratas a correntinha.
E todo mundo é assim.

Alberto K. said...

Às vezes a dor que fingimos, e deveras sentimos, nunca será compreendida pelos olhos alheios, exceto como rabiscos com pouco potencial de inteligibilidade...