Sunday, January 13, 2008

Sutileza




Adorava tomar café com leite. Colocava o leite, depois colocava o café e observava as duas cores opostas fundindo-se, o desenho cor de chocolate enquanto o leite branquinho ganhava outra cor.
Era prisioneira dos detalhes. Seu olhar era foco e sua visão panorâmica, quase inexistente. Ela preferia os microfenômenos: a vida invisível latente.
Ela parecia o desacontecimento. Parecia o morno. O tédio. A inércia.

Café-com-leite.

Se prestassem mais atenção, veriam os microfenômenos de sua existência discreta. Mas a sutileza estava tão fora de moda...
Ela gostava de fotografar.
Andava com sua máquina a tiracolo na bolsa e brincava de capturar momentos. Era como caçar borboletas: exigia sutileza, delicadeza, e percepção dos movimentos mais simples e ingênuos. Adorava eternizar os instantes, tornar finito o infinito. Enquadrava e era só apertar o botão: num click o cotidiano ganhava ares de arte amadora e ela amava cada foto e cada momento anônimo.

O que mais gostava de fotografar era os pés dos passantes desconhecidos. Pegava o metrô e fotografava pés no limiar entre a plataforma e o trem. Tinha tom de despedida.
No parque, pés de all-star dos casais de namorados sentados na grama e rindo cumplicidade.
Nas ruas do centro, milhares de pés com passadas largas em várias direções, ligeiros, apressados. Dirigiam-se à rotina com urgência inconsciente.
Ela gostava de ser a lente que mostrava o imperceptível. Ela enxergava poesia. E esperava por alguém que lesse versos em seus passos.

Algum caçador de borboletas perdido.

2 comentários:

Marcelo said...

Estava em mais um desses seus vôos de borboleta quando aconteceu. A lente foi rodando em torno de seu próprio eixo, parecia uma brincadeira de gangorra: cada vez que um lado quicava o outro saltava. Começou devagar, depois ficou mais rápido e parou. Estava rachada. O moço pediu desculpas. O moço não a vira. Agora não importava a sua distração ao focar os passos alheios com uma máquina fotográfica, não importava a sua própria culpa, a raiva simplesmente veio. Era incapaz de brigar com alguém, era incapaz de reclamar de filas de bancos ou de gritar com maus atendentes. Ainda assim, explodiu. Mais tarde se arrependeu. Ele se oferecera para pagar o concerto, pedira desculpas, havia deixado um telefone. Ela gritara nomes feios, quase sem se reconhecer. Agora, afogava-se em seus remorsos íntimos e buscava consolo nas fotos que surgiam no quarto escuro. A revelação dos filmes era algo que lhe fissurava tanto quanto a transformação do leite com café. Foi quando viu. O mesmo moço, nas mesmas roupas, no mesmo penteado. O que não vira antes fora o binóculo e o livro. Era da associação de ornitologia.

Anonymous said...

Teria a borboleta sido capaz de esmagar caçadores no simples momento em que tentaram se aproximar dela?