Monday, July 07, 2008

Os Passos

Ele andou pelas vielas estreitas observando as casas antigas cheias de história em cada detalhe de sua arquitetura. Pisava em paralelepípedos que não delimitavam calçada ou rua, sentindo a superfície irregular a massagear a planta dos pés sobre um chinelo confortável.

Respirou fundo tentando captar emoções e acontecimentos passados. O ar cheirava a nostalgia e trazia imagens enevoadas de tempos mais bonitos. Os ventos de lá pareciam assobiar segredos em seus ouvidos quando faziam as curvas nas vielas estreitas, e ele sorria cúmplice da confidência.

Os cabelos, macios e finos como fios de algodão doce já estavam brancos. Em volta dos olhos, os vincos eram tão harmoniosos que pareciam arte que ornamentava seu olhar profundo, ou ainda mesmo, dobras de origami em papel que já fora suporte pra tanta poesia e letras, e tanta arte e beleza que a vida imprimiu em sua alma.

Seu andar era agora calmo. Bem diferente das passadas apressadas e inconsequentes da juventude. Seus pés, apesar de mais cansados, eram mais convictos de suas passadas e de seus destinos.

Viu a figueira de sua infância ainda ali, com sua sombra fresca, seus galhos altos, e o mesmo espetáculo de luzes dos raios do sol que atravessavam a copa da árvore criando holofotes dançantes quando os galhos balançavam por causa do sussurro do vento. A figueira ainda estava de pé, mais forte do que ele agora.

Tocou o tronco com as mãos sentindo a superfície áspera e tateou tentando ler em braile tantos dias passados lá junto a figueira.

E então, caminhando em direção à árvore ele viu: os mesmos passos delicados de borboleta de muitos anos atrás. Seus passos não eram um simples andar. Pareciam performances de uma dança que ele não foi capaz de acompanhar no passado.



Mas de repente ele sentiu sua alma dançar como nunca dentro do peito.

2 comentários:

Anonymous said...

Quando jovens, cremos ter todo o tempo e toda a inteligência para enxergar o que está em volta. Nos cremos superiores às gerações antigas, démodés.
Mas a experiência é a única forma de realmente enxergar além. Pena que só vem quando não temos mais a juventude para nos acompanhar.
Por que não nascemos já experientes para vermos melhor a vida?

Anonymous said...

Como pouco raramente ouvimos dos experientes: "Queria ter minha experiência com sua idade."