Friday, October 10, 2008

Mantra

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A indiferença nossa de cada dia nos dai hoje...

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Exército de um homem só

Era trânsito paulistano das 18hs e os pensamentos sublimavam na rapidez que os carros jamais alcançariam.


A avenida congestionada era uma orquestra caótica de barulhos e ruídos. Um dedo em riste e o carro branco atende ao chamado. Entra.
Boa tarde conjunto nacional avenida paulista por favor quanto sai a corrida até lá.
Notava-se a pupila murcha e a íris ausente. Só vazios. Captavam imagens da rua sem absorvê-las: o nervo óptico traduzia os estímulos de luz, o cérebro recebia. E abstraía. Sem juízos de valor: apenas uma seqüência de imagens.
O homem puxa conversa. Fala do transito. Da rotina de viver entre faróis vermelhos e inconseqüências de pedestres. Cita o stress cotidiano e os malefícios da profissão. Era preciso driblar o stress com algum tipo de terapia. Olha que cantava. Estudava canto lírico e estava aprendendo uma música molto bela em italiano.
Mostra a pasta cheia de partituras. Havia tirado a abstração doentia dos olhos vazios que pegaram a pasta estendida e começaram a ficar intrigados. Não mais do que no momento em que o homem, meio que pedindo e meio que se desculpando arrisca cantar.
Desliga o som. Faz-se o silêncio da expectativa de toda apresentação sublime.
Ele começa. Tinha uma voz bonita. E de repente num táxi, uma canção, uma eudaimonia manifestada, uma emoção provocada. Era o irreal do cotidiano. A surpresa em forma de acaso.
Falaram de gostos e predileções. E havia no homem de pele escura aquela mesma vontade de abraçar o mundo que antes brilhavam nos olhos vazios de pupilas murchas. E sentiu de repente saudades de ser apaixonada pela vida.
Faço aulas de xadrez também.

- Há que se aprender estratégia. A vida é campo de batalha cheio de generais. É preciso cada um comandar seu exército de um homem só.


*O nome dele era Paulo.

4 comentários:

Wagner Miranda said...

maravilhoso.
de um fã do extinto retratos em palavras e amigo da tchella. :)
se quiser conhecer meu blog, o endreço é: www.adeusdoporto.blogspot.com

beijos,


w.

Marcela Brunelli said...

Eu consegui visualizar a cena, em alta resolução.

Saudade de textos assim, leves e lindos.
Saudade de você, amiga.

Um beijo no coração... e vamos voltar com o bolsa!
=*

Anonymous said...

Infelizmente, esse se instala em nós...

victor pompêo said...

Faz dois anos que eu conheço esse texto e ele ainda me arrepia toda vez que eu venho relê-lo. Uma obra prima.