Saturday, October 25, 2008

Nós, os que escrevemos



(...) "Se um dia eu voltar a escrever ensaios, vou querer o que é o máximo. E o máximo deverá ser dito com a matemática perfeição da música, transposta para o profundo arrebatamento de um pensamento-sentimento. Não exatamente transposta, pois o processo é o mesmo, só que em música e nas palavras são usados instrumentos diferentes. Deve, tem que haver, um modo de se chegar a isso. Meus poemas são não-poéticos mas meus ensaios são longos poemas em prosa, onde exercito ao máximo a minha capacidade de pensar e intuir. Nós, os que escrevemos, temos na palavra humana, escrita ou falada, grande mistério que não quero desvendar com o meu raciocínio que é frio. Tenho que não indagar do mistério para não trair o milagre. Quem escreve ou pinta ou ensina ou dança ou faz cálculos em termos de matemática, faz milagres todos os dias. É uma grande aventura e exige muita coragem e devoção e muita humildade. Meu forte não é a humildade em viver. Mas ao escrever sou fatalmente humilde." (...)


Uma aprendizagem ou O Livro dos Prazeres
Clarice Lispector


1 comentários:

João Francisco A. Enomoto said...

Que delícia! Está numa fase Clariciana! Adoro essa mulher e faz tempo que não a leio.

Acho que é impossível não querer achar algo em comum com todos aqueles que escrevem. Parece ser um grupo segregado pelo cotidiano, que pretende achar nos fragmentos do tempo um alguém que compartile por um instante o seu enjôo, esse vômito quase-brócolis diário de palavras e sentimentos.

Dai as mãos aos escritores que resistem no nosso tempo, para que o tempo ou a morte não os leve para longe de si (ou os que aposentaram ou ainda os que não atualizam o blog há muito tempo :P).

Beijos modernistas!