Então passei a acreditar que o grande erro das pessoas era deixar-se sentir dor. A força viria do ato de prevenção e combate à causa direta. Você só poderia sentir dor se quisesse e se permitisse. Mais tarde vi que não deixar-se afetar pela dor só trazia a insensibilidade e a indiferença pelas coisas do mundo. Nada tinha a ver com a força, e ainda perdia-se a sensibilidade não só à dor, mas também a todas as outras coisas boas de se sentir.
Gastei uns tempos de reflexão para erguer alguma nova teoria a ser experimentada. Perdi minutos de sono e várias folhas do bloco de anotações na cabeceira da cama e enfim pensei concluir: o maior erro das pessoas era ter medo da dor. A vida era de um equilíbrio antagônico, e tanto a dor como a alegria deviam ser componentes da felicidade. Sim, reconstruir o ideal de felicidade que sempre ouvi descreverem como a ausência absoluta de dor foi um processo difícil de se colocar em prática para o bem experimental da minha própria filosofia. Quando enfim consegui, notei que não temer a dor, isto também não fazia sentir-me mais forte. Era como se ignorasse um alerta do organismo, como se ignorasse o queimar dos dedos perto da fogueira e isso não era bom: acabava-se queimando. A dor é um alerta.
A dor é um alerta.
A idéia grudou nos meus ouvidos e nos meus cabelos. Repetia muitas vezes ao dia, escrevia rabiscando em qualquer papel, e não me saía nada além disso:

Crédito da imagem: Flickr por lomokev
Numa noite insone, enfim meus dedos mudaram para uma caligrafia rompante de parto nas folhinhas do meu bloco de anotações. O grande erro das pessoas não é demonstrar dor, nem permitir-se sentir dor, nem temer a dor. O grande erro é ignorar a dor como alerta de algo que não vai bem na alma e acabar não refletindo sobre a própria dor.
Porque nos incomoda, tentamos a todo custo evitá-la, temê-la, ignorá-la, quando na verdade acredito que ela seja um alerta para pensarmos naquilo que causa sua existência. E pensar a dor só é possível vivendo-a, sentindo-a tranquilamente para que possamos entendê-la e descobrirmos um pouco de nós.
Não se trata de uma filosofia masoquista, Gabriel. Já está me olhando com uma cara de quem vai contra-argumentar minhas horas de sono em claro e papel rabiscado! Veja, o masoquista é tudo menos forte. Ele na verdade é um eterno revoltado por acreditar fielmente na idéia de que a felicidade seja a ausência total de dor. E isso nunca acontece a ele. Então como forma de rebelar-se, intensifica a dor e nela procura a fuga. Porque teme mais a idéia de que a felicidade não nos livre da dor, do que viver por escolha própria na dor eterna e intensa.
Por isso esse meu rascunho de filosofia não pode ser masoquista. Intensificar a dor, ou provocá-la não é felicidade. A dor vem naturalmente do mistério de estarmos vivos, porque a própria condição de existir como ser humano é sobrenatural.
Existir é sobrenatural?
É... às vezes eu sinto que eu ser, assim, existindo, sou um milagre que nem eu mesma me explico.
1 comentários:
A existência é um absurdo.
Post a Comment