Tuesday, October 12, 2010

O grito raivoso da existência

ou palavras concretas de uma boca inexistente
ou existir é se chamar


para ler a primeira parte: Sobre a responsabilidade de se ter olhos quando outros não enxergam

... E então de repente toda a proteção das grandiosas construções ruiu. A sensação tão confortante da invisibilidade tinha sido violada. Seu corpo todo parou em meio ao fluxo ordenado da grande avenida atrapalhando o tráfego de pedestres hipnotizados. Ela existia.

E um cego confirmara isso. Não era preciso que visse seu corpo magro murcho ou seus olhos caídos que piscavam nervosamente rápidos. Ele havia percebido. Talvez sua respiração inaudível, suas passadas marchantes de libélulas cautelosas... não! Impossível! Era tudo de uma mudez harmônicamente impecável. Até para os sentidos aguçados de um cão. Eles, que nunca abanavam os rabinhos quando ela era a visita. Suas orelhinhas permaneciam sempre murchas e dormentes quando ela passava quieta, a personificação daquilo objeto da indiferença.

Sentiu o peito pesar opressão. As sobrancelhas desbalancearam como gangorras enferrujadas, e penderam seu lado mais pesado no meio da raiz das narinas, rangendo. Os cantos dos lábios finíssimos se curvaram à lei da gravidade. Era mais difícil respirar. Ofegou. Contrariada.

Sentia a raiva. Certeira, bruta, cruel.

E assim ficou: imóvel no meio da calçada. O corpo todo inerte, carente da energia que se acumulava naqueles músculos faciais que pela primeira vez exercitavam expressão própria, não copiada. Era novidade.

Trombada. Algum terno engravatado declamou impropérios. Mais um! Empurrão. O ombro sujo e uniformizado, operário, prosseguiu resmungando. Irritação. As rugas de cabelos brancos que sustentavam o óculos e a bengala Jandira reclamavam falta de respeito com idosos. Ansiedade. Uma mochilinha com agasalho nos quadris infantis tentava uma manobra para desviar do conjunto irreconhecível de gangorras enferrujadas enraivecidas e inertes no meio da calçada. Xingamento. O coque bem feito de saia maquiada sapateava um salto indignado:

- Mas que palerma!!!!

... Não! Tinha um nome senhora,
e era Rebeca!

1 comentários:

Anonymous said...

é sempre no extremo de uma raiva q nasce o grito do eu.