Thursday, October 07, 2010

Vai passar... (???)

Nosso tempo substituiu as forças brutais e óbvias da ditadura, por uma força mais complexa e sutil. Mais arraigada no nosso inconsciente, no nosso dia-a-dia. E por isso mesmo, mais perigosa – porque passa desapercebida. Quem não prestar muita atenção vai acabar acreditando que é tudo fatalidade e assim se afogar no mar imenso do comodismo. Afinal, animais domesticados desaprendem os riscos. Será que não estamos domesticados demais?






Vai passar nessa avenida um samba popular
Cada paralelepípedo da velha cidade essa noite vai se arrepiar
Ao lembrar que aqui passaram sambas imortais
Que aqui sangraram pelos nossos pés
Que aqui sambaram nossos ancestrais
Num tempo página infeliz da nossa história,
passagem desbotada na memória
Das nossas novas gerações

Dormia a nossa pátria mãe tão distraída
sem perceber que era subtraída
Em tenebrosas transações
Seus filhos erravam cegos pelo continente,
levavam pedras feito penitentes
Erguendo estranhas catedrais
E um dia, afinal, tinham o direito a uma alegria fugaz
Uma ofegante epidemia que se chamava carnaval,
o carnaval, o carnaval

Vai passar, palmas pra ala dos barões famintos
O bloco dos napoleões retintos
e os pigmeus do boulevard
Meu Deus, vem olhar, vem ver de perto uma cidade a cantar
A evolução da liberdade até o dia clarear

Ai que vida boa, ô lerê,
ai que vida boa, ô lará
O estandarte do sanatório geral vai passar
Ai que vida boa, ô lerê,
ai que vida boa, ô lará
O estandarte do sanatório geral... vai passar

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