Não precisamos de grandes transformações. São as pequenas revoluções diárias e cotidianas que causam os impactos maiores: aquelas que se enraízam invisíveis como sementes em terra descampada e de repente surgem fortes e verdes, abarcando tudo com sua enorme sombra e frondosos ramos que barram ventos de todos os litorais. O espalhafato é alarde, recurso desesperado de publicidade para compensar a lacuna de propriedade. A melhor revolução e também a mais perigosa é aquela que nasce sem ritual de anunciação, aquela que cresce aos poucos e se faz notar quando já é irremediável.
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Se medica a insônia, a ansiedade, o pânico, se remedia a tristeza. Não se dá nunca atenção ao incômodo - simplesmente se extermina o indesejável. E se anestesia o espírito, e se negligencia a fala. A dor, quando sincera, emburrece. Só encontramos a serenidade quando o que desejamos não nos interessa mais. Desejar é o paradoxo platônico, o placebo da inquietação, a ilusão temporária ou eterna da experienciação. Se alcanço, já não desejo – possuo. O desejo tem por objetivo final a auto-aniquilação no realizável. Desejar é somente motivacional. É encanto. É alteração da polaridade da potência do espírito. E o paradoxo somente por ser paradoxo é que é possível, porque a vida exige alteridade e exige transição. E talvez, só talvez, o movimento da vida não seja nem progressivo, tampouco linear – mas cíclico. A necessidade somente do movimento injustificado, somente por mover, por transitar, sem o porto do “aonde”. Torturar-se por não saber em qual direção se está indo seria então inconcebível. E ilógico. Mas a contradição é a ironia de toda linha do pensamento que de repente risco sem disciplina: desconfio tanto do que faz sentido por demais. Sempre imagino que não se teve a coragem do aprofundamento no abismo. Boiar em águas mornas aonde o sol bateu à tarde. Não acredito em nada do que me chega convincente em pensamentos gratuitos da madrugada e que me assaltam descaradamente. E não tenho mais o tempo de épocas passadas para moldar um nexo entre isso ou aquilo: externalizar e já basta. O suficiente para manter o mínimo de sanidade. Desleixadamente garrancho letras e frases em papel barato e avulso pela necessidade e urgência daquela hora. Reluto depois em jogar fora: não consigo. Dobro-os então com remorso. Abandono com carinho em algum banco público. A esperança de encontrar eco mesmo em possibilidades remotas de leituras improváveis. Ou ao menos que joguem no lixo o que me faltou coragem para fazê-lo. E isso já é prepotência ou egoísmo. Ou pode ser simplesmente ingenuidade.
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Às vezes confundimos sabedoria com prevenção. Existe uma aura mística em torno da sabedoria como se ela fosse a bola de cristal pronta para revelar o futuro, prever a próxima catástrofe, evitar a mazela seguinte. Como se a adivinhação fosse o elixir da segurança. Quando na verdade seria o homicídio daquilo que resiste encantador na vida. O imprevisível só é adorno para corajosos ou em alguns outros casos, para os entediados.
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